terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Markéta Luskacová, Cafe Bethnal Green Rd. 79


O tédio é a verdade em estado puro.

Jacques Rigaut

O Valor do Vento




Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus poemas de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que eu gosto
O vento das ásvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jáz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto



Ruy Belo in Orla Marítima e Outros Poemas (Assírio&Alvim, 2008)

segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

O Haver



Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura

Essa intimidade perfeita com o silêncio

Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo

De ferir tocando, essa forte mão de homem

Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos

Essa inércia cada vez maior diante do Infinito

Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível

Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento

Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade

Do tempo, essa lenta decomposição poética

Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio

Numa catedral em ruínas, essa tristeza

Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria

Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza

Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido

Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa

Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado

De pequenos absurdos, essa capacidade

De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil

E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza

De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser

E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa

Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar

De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade

De aceitá-la tal como é, e essa visão

Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior

De mundos inexistentes, e esse heroísmo

Estático, e essa pequenina luz indecifrável

A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos

De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória

Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade

De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade

Pelo momento a vir, quando, apressada

Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante

Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto

Esse eterno levantar-se depois de cada queda

Essa busca de equilíbrio no fio da navalha

Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo

Infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes

domingo, 26 de Outubro de 2008


6. Completas

Agora que o desejo e as coisas desejadas
_____Cessaram de requerer atenção
E agarrando a oportunidade o corpo foge,
_____Bocado a bocado, para se reunir
Às plantas numa paz casta que lhe fica
_____Mais a gosto, agora um dia é o seu passado
Com os seus gestos e sentimentos, deveria
_____Chegar o instante da recordação,
Em que tudo tem sentido: chega,
_____Mas só recordo portas que batem,
Donas de casa que rabujam, um velho que se empanturra,
____O olhar de inveja de uma criança,
Acções, palavras que caberiam em qualquer história,
____De que não consigo entender nem a intriga
Nem o sentido; não consigo lembrar-me
____De nada, entre o meio-dia e as três.

Um som apenas me acompanha agora,
____O bater do coração, um pressentimento
De estrelas vagueando e ambos
____Falam a língua do movimento
Que posso medir, mas não ler: talvez
____O meu coração confesse a sua parte
No que aconteceu entre o meio-dia e as três,
____Certamente as constelações
Cantarão algum sarcasmo além
____De todo o afecto ou acontecimento,
Mas sabendo que não sei o que sabem
____Nem o que deveria saber, desprezando
As fornicações vãs da fantasia,
____Deixem-me, abençoando-os
Pela doçura das suas destituições,
____Aceitar os nossos desencontros.

Um passo mais levar-me-ia ao sonho,
____Deixar-me-ia sem privilégios
Entre as suas tribos sujas de desejo
____Que não têm jogos nem danças,
Apenas um culto mágico para propiciar
____O que acontece entre o meio-dia e as três,
Rituais antigos que de mim escondem - se deparasse
____Por exemplo, com jovens num souto
Insultando um veado branco, nem empenhos
____Nem ameaças os obrigariam a trair - depois,
A negação da mentira é um passo para o nada,
____Para o fim, o meu e o das cidades,
É a ausência total: o que aconteceu
____Deverá voltar para o não ser,
Por respeito da equidade, do rtimo
____Além de medida ou compreensão.

Os poetas podem ser salvos
____(E os homens na televisão)? Não é fácil
Acreditar na justiça incompreensível
____Ou rezar em nome de um amor
Cujo nome se esqueceu: libera
____Me, libera Si (caro Si)
E todos os f-d-p que nunca fizeram
____Nada certo, perdoem-nos
No dia primordial em que nos acordam
____Aos safanões, factos são factos
(E saberei exactamente o que aconteceu
____Hoje entre o meio-dia e as três)
E também nós poderemos ir hoje ao piquenique
____Sem nada para ocultar, juntarmo-nos
À dança que se move em pericorese,
____À volta da árvore votiva.




W. H. Auden in O Massacre dos Inocentes - Uma antologia - excerto de Horae Canonicae («Immolatus vicerit») (Assírio&Alvim, 1994)
Markéta Luskacová, Children in a Playground (London)

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Schönberg, de novo...


... para vos mostrar outro registo. e é por isto, talvez, que deve ser o único no género de que gosto.
a peça chama-se Noite Transfigurada.










Schönberg, Verklaerte Nacht

Live from Lincoln Center
Violinos: Arnaud Sussmann, Erin Keefe
Violas: David Kim, Teng Li
Violoncelos: David Finckel, Priscilla Lee

domingo, 19 de Outubro de 2008

para a Miss Spring








sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Clarice Lispector




Parte 1

Parte 2

Parte 3

quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Doidos Varridos!

quando digo que os músicos não são bons da cabeça, é a isto que me refiro



Salut Salon

In Due Seasen

para a Amélia



Vincent van Gogh




Spring-time, Summer and Fall: days to behold a world
Antecedent to our knowing, where flowers think
Theirs concretely in scent-colours and beasts, the same
Age all over, pursue dumb horizontal lives
On one level of conduct and so cannot be
Secretary to man's plot to became divine.

Lodged in all is a set metronome: thus, in May
Bird-babes still in the egg click to each other Hatch!;
June-struck cuckoos of off-pitch; when obese July
Turns earth's heating up, unknotting their poisoned ropes,
Vipers move into play; warned by October's nip,
Younger leaves to the old give the releasing draught.

Winter, though, has the right tense for a look indoors
At ourselves, and with First Names to sit face-to-face,
Time for reading to thoughts, time for the trying-out
Of new metres and new recipes, proper time
To reflect on events noted in warmer months
Till, transmuted they take part in a human tale.

There, responding to our cry for intelligence,
Nature's mask is relaxed into a mobile grin,
Stones, old shoes, come alive, born sacramental signs,
Nod to us in he First Person of mysteries
They know nothing about, bearing a message from
The invisible sole Source of specific things.



W. H. Auden

René Magritte, La Reconnaissance Infinie (1963)




Muito acima das nuvens seja o centro
das nossas misteriosas poéticas
o irresistível anseio de viajar
um só movimento trabalhado à mão
nos ermos mais altos
mais desaparecidos.



Mário Cesariny in Autografia e outros poemas de Pena Capital (Assírio&Alvim, 2007)

Na Estação Própria

Vincent van Gogh



Primavera, Verão, Outono: dias em que se adivinha
Um mundo prévio aos nossos conhecimentos, em que
As flores pensam na concretude do cheiro das cores
E animais de idade indefinida perseguem vidas irrisórias,
Horizontais, evitando serem, com esse nível de conduta,
Assessores da intriga do homem para se tornar divino.

Um metrónomo infalível instala-se em tudo: assim, em Maio
Crias de pássaros no ovo gritam às outras: Nasçam!;
Os cucos surpreendidos por Junho desafinam; quando Julho
Obeso liga o calor da terra, desembaraçando amarras venenosas,
As víboras entram na festa; avisadas pelo beliscão de Outubro
As folhas novas dão às velhas o puxão libertador.

Todavia, o Inverno tem o verbo certo de um olhar caseiro
Para nós mesmos, sentados cara a cara com os Nomes Próprios,
Tempo para ler os pensamentos, o tempo exacto
De experimentar novos metros e novas receitas,
De reflectir nos factos que meses mais quentes trouxeram
Até que transmudados, façam parte de uma história humana.

Aí, respondendo à nossa exigência de compreensão,
A Natureza afrouxa o esgar até um arreganho mutável,
Pedras, sapatos velhos, renascem como signos sacrificiais,
Acenam-nos na Primeira Pessoa dos mistérios
Que desconhecem, acartando uma mensagem
Da única Fonte invisível do singular das coisas.

W. H. Auden in O Massacre dos Inocentes - Uma Antologia ( trad. José Alberto Oliveira, Assírio&Alvim, 1994)

quarta-feira, 15 de Outubro de 2008


hoje a minha mãe telefonou-me para irmos almoçar. andámos a passear. acabou por fazer uma coisa que já não a via fazer há anos: comprou umCD. talvez porque esteja a sentir o peso do tempo que passa.
quando, de repente, disse
- vou levar
fiquei quase sem saber o que dizer, surpresa
- vais mesmo levar?
- vou.
abracei-a e disse-lhe que era uma excelente compra.

Nina Simone, Ain't Got No, I Got Life

terça-feira, 14 de Outubro de 2008

The Starry Night



That does not keep me from having a terrible need of - shall I say the word - religion. Then I go out at night to paint the stars.


Vincent Van Gogh, numa carta ao seu irmão




The town does not exist
except where one black-haired tree slips
up like a drowned woman into the hot sky.
The town is silent. The night boils with eleven stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die.


It moves. They are all alive.
Even the moon bulges in its orange irons
to push children, like a god, from its eye.
The old unseen serpent swallows up the stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die:


into that rushing beast of the night,
sucked up by that great dragon, to split
from my life with no flag,
no belly,
no cry.



Anne Sexton




segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Baile em Braço de Prata (s.d.)

South American Way






Coimbra, 28 de Abril de 1949 - Talvez porque nas coisas gerais os homens de agora são obrigados a ter a mesma opinião, a mesma conduta e as mesmas reacções, nos pormenores são duma divergência tal que não há lei que os irmane. E cada vez se torna mais difícil compreender e, sobretudo, ajudar alguém. Os largos e claros caminhos de outrora, ou lógicos, ou morais, ou sentimentais, ou simplesmente naturais, são neste momento atalhados a estreitas e secretas passagens onde cabe apenas o instinto de conservação daquele que as descobriu.



Miguel Torga in Diário V (Coimbra, 1974)


Carlos Paredes, Canção de Acipe


Como é que continua o nosso Portugal tão igual a si mesmo?



hoje, caí da cama.

domingo, 12 de Outubro de 2008

será que tenho assim tanta razão em andar chateada com a minha vida, quando tudo isto


acontece à minha volta?

sábado, 11 de Outubro de 2008




quando se fala de mulheres bonitas, são sempre as mesmas.
pois eu, acho esta linda. e, não, nunca vi nenhum filme da Sissi.

quinta-feira, 9 de Outubro de 2008




o meu menino Brown morreu ontem.
ia fazer 15 anos em Dezembro.

quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

cedido gentilmente pelo meu amigo Celestino


Pablo Picasso, Guernica



El miedo a los bárbaros es lo que amenaza con convertirnos en bárbaros.



Tzvetan Todorov

sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Dinis Machado (1930-2008)




[...] entrou por manhãs calmas saiu por tardes tempestuosas, conheceu a desvairada solidão dos aglomerados e o encontro a sós consigo próprio, em pontes nocturnas sobre o mar, foi orientado por luzinhas longínquas e percorreu círculos viciosos envolvido em nevoeiro, viu a dádiva de tudo em olhares passageiros e a recusa de tudo na dureza de outros olhos, muito desnorte, um certo apelo, desolação, algum pavor, mágoas secretas, chagas lambidas, gritos calados, suores imensos, prantos mordidos, fúrias latentes, traições rasteiras, crimes inúteis, e também lírios, esquinas de encontro, amores-perfeitos, camaradagen, peitos abertos, contentamento, prazer de nada, riso e lágrimas, cabeça ao vento, cara na lama, moeda falsa, libra esterlina, sangue cuspido, saliva fresca, dor muscular, repouso ganho, rio que não pára, margem que fica, folha que cai, ramo que cresce, viagem certa, derivação, ursa maior, lodo profundo, canto e mudez, brilho e toupeira, espírito forte, perna arrastada, bota cambada e pé na areia, voltou ao bairro numa certa noite de lua alta, a tranquilidade era absoluta, durmam todos, durmam todos, lembrou-se de Manuel Bandeira e de que estão todos dromindo profundamente, amanhã talvez seja um novo dia, talvez haja, quem sabe?, um Movimento de Capitães feito com uma rapidez que já está, [...]



O Que Diz Molero (Bertrand Editora, 2003)


quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Da Música...





Purcell (1659-1695)
Here the Deities – Benjamin Perrot





Scarlatti (1685-1757)
Sonata em Mi Maior, K 531 - Iddo Bar-Shaï




J. S. Bach (1685-1750)
Sonata nº 5 em Fá Menor, BWV 1018 (Adagio) – Lucy van Dael e Bob van Asperen




Chopin (1810-1849)
Valsa em Mib Maior – Abdel Rahman El Bacha



Polaca em Dó Menor, Op. 40, n.º2 - 1 – Paulo Santiago



Nocturno em Si b Menor – Peter Schmalfuss



Sonata para Piano em Si b Menor, Op. 35 (Grave – Doppio Movimento) – Sergei Rachmaninov




Schumann (1810-1856)
Cenas Infantis, Op. 15, n.º 10 – Paulo Santiago





Liszt (1811-1886)
Concerto para Piano n.º1 em Mi b Maior (Quasi Adagio) - Nikita Magaloff - Orquestra Sinfónica da Rádio de Zurique





Brahms (1833-1897)
Sinfonia n.º 4 em Mi Menor, Op. 98 (Allegro non troppo) – Philarmonic Symphony Orchestra





Grieg (1843-1907)
Concerto para Piano em Lá Menor, Op. 16 (Adagio) – Dubravka Tomsic – Radio Symphony Orchestra Ljubljana





Janácek (1854-1928)
Quarteto para Cordas n.º 2, “Intimate Letters” (Moderato-Adagio-Allegro) – Vlach Quartet Prag






Mahler (1860-1911)
Sinfonia n.º 4, 4º Andamento (Sehr Behaglich) – Gustav Mahler e Yvonne Kenny





Satie (1866-1925)
Enfantillages Pittoresques II: Berceuse – Aldo Ciccolini





Rachmaninov (1873-1943)
Etude-tableaux, Op. 39 - n.º 8 – Nikolai Lugansky





Villa-Lobos (1887-1959)
Suite Floral (Idílio na Rede) – Sónia Rubinsky





Prokofiev (1891-1953)
Piano concerto n.º 1 (Andante Assai) – Gabriel Tacchino, Radio Luxembourg Orchestra – Louis de Froment





Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
2 Embalos – Olga Prats






Britten (1913-1976)
Chanson d'automme – Ian Bostridge





Arvo Pärt (1935-)
Für Alina – Jürgen Kruse





Sérgio Azevedo (1968-)
Duas Borboletas para Olga (2 pianos) – Olga Prats





Jorge Salgueiro (1969-)
In Paradisum – João Vasco







Sara Claro (1986-)
Nove Pequenas Peças, n.º 7 – Olga Prats








NOTA: As indicações em falta devem-se à não referência na fonte.


domingo, 28 de Setembro de 2008

Domingo...




Kirchner, Marcella (1910)


Godard

La catastrophe... C'est la première strophe... D'un poème... D'amour

sábado, 27 de Setembro de 2008

Para...



... a woab





A Gralha Negra em Tempo de Chuva



Lá no alto, num ramo firme
arqueia-se uma gralha negra toda molhada
arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva.
Não espero qualquer milagre
nem nada

que venha lançar fogo à paisagem
no interior dos meus olhos, nem procuro
mais no tempo inconstante qualquer desígnio,
mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,
sem cerimónia ou maravilha.

Embora ‒ admito-o ‒ deseje
ocasionalmente alguma resposta
do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:
uma certa luz pode ainda
surgir incandescente

da mesa da cozinha ou da cadeira
como se um fogo celestial tornasse
seu, de um instante para o outro, os mais estranhos objectos,
assim consagrando um intervalo
de outro modo inconsequente

por nos dar grandeza e glória,
ou até amor. De qualquer modo, caminho agora
atenta (pois isso poderia acontecer
mesmo nesta paisagen triste e arruinada); descrente;
mas astuta, ignorante

de que um anjo se decida a resplandecer
repentinamente a meu lado. Apenas sei que uma gralha
ordenando as suas penas negras pode brilhar
de tal maneira que prenda a minha atenção, erga
as minhas pálpebras, e conceda

um breve repouso com medo
de uma neutralidade total. Com sorte,
viajando teimosamente por esta estação
de fadiga, acabarei
por juntar um conjunto

de coisas. Os milagres acontecem
se gostares de invocar aqueles espasmódicos
gestos de luminosos milagres. A espera recomeçou de novo,

a longa espera pelo anjo,
por essa rara, fortuita visita.



Sylvia Plath in Pela Água (trad. Maria de Lurdes Guimarães, Assírio&Alvim, 2000)


sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Hoje...


...recebi um e-mail tão lindo! a felicidade está sempre à espreita. nós, muitas vezes, é que andamos a olhar para o outro lado.
parafraseando a minha querida Amélia - uma grande alma, aquele Manel.
mil abraços para ele.




Olá Sara
Devo-te, entre outras, três horas de uma estranha felicidade. Alta madrugada, sozinho, a caminho do Algarve. Sempre e só, o teu/meu Janacek. Da faixa 1 à faixa 21, e outra vez da 1 à 21, e outra vez... Alentejo fora, das 2 às 5 da matina, a estrada toda para mim, condução lenta, as notas mais que a luz abrindo caminho na escuridão. E sugerindo sonhos e viagens e momentos de pequena felicidade. Tu não sabes mas nessa noite, há vários meses, pensei muitas palavras para te dizer obrigado. Já esqueci essas plavras, mas não o sentimento de gratidão que elas traduziam. Essa viagem com o Janacek, e um pouco contigo também, foi uma experiência muito forte. Durante semanas, não tirei o disco do carro, até que inadvertidamente o devo ter colocado noutra embalagem. Por muito tempo não soube dele e, de cada vez que ia viajar, sentia o mesmo incómodo, como se me faltassem os sapatos de bicos para a prova do dia seguinte. Adiante.
Hoje passei pela Gulbenkian para comprar-te 2 bilhetes para o concerto de 12 de Janeiro. Se não tivesses melhor companhia, podias convidar-me. A senhora olhou-me como se olhasse um extraterrestre: Prò Lugansky? Está esgotado desde Junho! Sou mesmo distraído...
Acho que foi a primeira vez que abri um mail teu. Via o teu nome e pensava: só vou abrir quando tiver a certeza de que posso responder imediatamente. Claro, nunca mais. Até que, num dia desta semana, passou por cá a Sónia e calhou falar de ti. Contei-lhe a história da minha noite com o Janacek. E ela disse: conta-lhe essa história, ela vai gostar.
Pronto, mesmo que não tenhas gostado, já está.
Beijinhos
Manel




Leos Janacek, In rememberance




Leos Janacek, On an overgrown path (1901-1908) - The Madonna of Frýdek

(interpretação: Hakon Austbo)


Salvador Dalì, O Cristo de São João




[...] Jesus que perdoa Judas, o Jesus que agradece a Judas essa escada de amor a que chamamos perdão. Esse Jesus era apenas um homem capaz de cometer coisas imperdoáveis, solidário com a concreta fragilidades dos Homens. Só esse Jesus me interessa. [...]


Inês Pedrosa in Fazes-me Falta (Publicações Dom Quixote, 2002)

terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Words




Be careful of words,
even the miraculous ones.
For the miraculous we do our best,
sometimes they swarm like insects
and leave not a sting but a kiss.
They can be as good as fingers.
They can be as trusty as the rock
you stick your bottom on.
But they can be both daisies and bruises.
Yet I am in love with words.
They are doves falling out of the ceiling.
They are six holy oranges sitting in my lap.
They are the trees, the legs of summer,
and the sun, its passionate face.
Yet often they fail me.
I have so much I want to say,
so many stories, images, proverbs, etc.
But the words aren't good enough,
the wrong ones kiss me.
Sometimes I fly like an eagle
but with the wings of a wren.
But I try to take care
and be gentle to them.
Words and eggs must be handled with care.
Once broken they are impossible
things to repair.


Anne Sexton (1928 - 1974)

Papoilas em Julho

Monet, Papoilas



Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,
sois inofensivas?


Estremeceis. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada queima.

E fico exausta quando vos vejo
estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da boca.

Uma boca há pouco ensaguentada,
pequenas orlas de sangue!

Há nela um fumo que não consigo tocar.
Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?

Se eu pudesse esvair-me em sangue ou dormir!...
Se a minha boca conseguisse desposar uma tal ferida!

Ou os vossos licores me penetrassem, nesta cápsula de vidro,
trazendo-me a acalmia e o silêncio.

Mas sem cor. Sem nenhuma cor.




Sylvia Plath in Pela Água (trad. Maria de Lurdes Guimarães, Assírio&Alvim)


segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Hoje,...

... estava na Loja do Cidadão - Segurança Social com a minha mãe, e lembrei-me inúmeras vezes deste sketch.



Duas palavras muito portuguesas:...



... Fado e Saudade.






Sempre fui nostálgica, sobretudo do que não chegou a acontecer. Dos deslumbramentos a haver.

Inês Pedrosa in Fazes-me Falta (Publicações Dom Quixote, 2002)

domingo, 21 de Setembro de 2008

Para...

...a minha querida amiga Amélia



Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito

E saiam também os rios
da paciência da terra
É no mar que a aventura
tem as margens que merece.

E saiam todos os sóis
que apodreceram no céu
dos que não quiseram ver
- mas que saiam de joelhos

E das mãos que saiam gestos
de pura transformação
Entre o real e o sonho
seremos nós a vertigem



Alexandre O'Neil in Poesias Completas (Assírio&Alvim)

sábado, 20 de Setembro de 2008


Gustav Klimt, Die Erfüllung (1905-09)



[...] Eu só queria ver como eram feitos por dentro. Como aquela esponja se transformava em borboleta. Eu só queria ver de que material era feito o teu amor por mim. Precisava de escangalhar o teu coração para o fazer encaixar no meu. [...] Amar em abstracto é muito mais ágil do que amar em concreto. [...] Tomei a amizade como uma versão adulta e vacinada do amor, o que significa que transferi para casa dela a artilharia pesada do meu batalhão de afectos. Substituí o Princípe Encantado pelo Amigo Maravilhoso, que eras tu. [...] Nada nos poderia separar porque estávamos naturalmente livres das armadilhas do desejo, da via sacra da posse e do sacrifício. Quanta candura - e nem sequer tive tempo para salvar o mundo. [...]




Inês Pedrosa in Fazes-me Falta (Publicações Dom Quixote, 2002)

quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

Para...

... a Miss Spring




terça-feira, 16 de Setembro de 2008

o peixe morre pela boca.

Richter

Ravel, Jeux d'eau

Solilóquio para que o outro escute





Lucien Freud



O amor e o depois já terminaram.
Sei-o por este frio que em Agosto
meus olhos secou e minhas mãos.
Nada quero fitar e ninguém toco.

Habito num Inverno. Neste campo
neva o sol fogo, espectro roxo
de uma paixão que me transtornou.
Seja a ordem que exista o gelo só.

Bebe-o tu depois, bebe-o no copo
que chega do inferno cheio de ouro:
verás como te cura esse cansaço
quando te dê o sabor de que não somos.



Francisco Brines in A Última Costa (trad. José Bento, Assírio&Alvim, 1997)

segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Velasquez, Las Meninas



Andrea Falconieri, La suave melodia y su corrente para flauta e baixo contínuo
(interpretação: Trio Amarillis)
para a nessita


(...) Querida Sandra. Está hoje uma tarde ardente como quando aqui cheguei. E passados todos estes anos me foi ainda possível cumprir a mnha monotonia. Decerto houve uma ou outra ida à capital como talvez te conte, vou à vila de vez em quando como vão alguns amigos que a ela afluem das aldeias circunstantes, vou a uma ou outra loja da aldeia para um pouco de conversa, nelas ou nas imediações, com aldeões desocupados, vou ao correio, a casa do médico Mário, meu amigo. Ou simplesmente olho a serra e não me canso de a olhar na sua imóvel magnitude, um pouco obtusa, olho a renovação dos campos pelas estações, forçando a atenção para isso, porque o que se vê muito não se vê, folheio mesmo alguns livros que já não me dizem nada no tudo que me disseram. Mas nos intervalos de ir existindo por fora, fica a tua imagem à espera que eu regresse para vir ter comigo e me sorrir. Na realidade tu não sorris ou tens só o anúncio disso como um esplendor. Assim sorrio eu na intimidade de mim, parado no enlevo do teu encantamento. É assim que te não lembronunca nas horas difíceis da tua irritação, da tua rispidez fina cortante, mesmo nas horas do teu envelhecimento que ainda conheci. Eu sofria quando te irritavas e reagia às vezes com uma aspereza que restabelecesse o equilíbrio de estarmos um com o outro. Mas lembro-me de que tu não reagias por teres em ti outra força para aguentares e seres tu. E diante dessa força eu quebrava numa certa humilhação que me vinha de ti com a réplica que não davas mas davas de um modo que me aniquilava. E amava-te mais no susto de te perder e na divindade que era tua e eu ousava profanar. (...) Mas agora que te relembro, o que sempre me aparece é a tua face sem tempo, a tua face gentil, a verdade impossível do teu ser. (...)



Vergílio Ferreira in Cartas a Sandra (Bertrand Editora, 1998)

A Televisão Portuguesa

domingo, 14 de Setembro de 2008


Cindy Sherman


Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


Anna Akhmátova in Só o Sangue Cheira a Sangue (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 2000)

"Isto, sim,...

... é cultura. E da boa!"



sábado, 13 de Setembro de 2008

Pois é...

... às vezes, tem mesmo de ser assim. grande maluco. mas eu sempre gostei de malucos. deve ser o meu maior problema.

Candy


para a minha querida Catarina






falávamos, eu e a Catarina, de como, por vezes, temos de deixar partir quem amamos. porque conseguimos tão facilmente fazer sofrer alguém de quem gostamos... e isso, às vezes, é mais assustador do que deixá-los partir.

depois fomos ver este filme, sem sabermos do que tratava. e não precisámos de falar mais.

Incendeias-te de significados
e descobres com horror
o que se encontra nas margens
desse esforço:
o rosto lodoso do rio
que traz a voz dos ausentes.

Já alguém percute o aço dessa voz
de que escutarás
somente
o dissonante chamamento.


Luís Quintais in Canto Onde (Cotovia, 2007)

quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Porque é que...

... este texto me faz sentir tão infeliz?...

A cidade mais bonita do mundo!

A arte da fuga

(...) O alarme advém da vista ou do ouvido e, com a pressa, passa directamente para as asas. Mas que coisa mais bela, um cerebrozinho desprovido de medo num organismo em fuga! (...) Fogem todos, mas de um modo que parece que dizem: eis uma boa razão para ter medo. Não conhecem hesitações. Custa tão pouco fugir quando se tem asas. E o seu voo vai seguro. Evitam os obstáculos roçando neles e atravessam o mais denso emaranhado de ramos de árvore sem se deixarem prender ou ferir. Pensam apenas quando já estão longe e procuram então compreender o motivo da fuga, estudando lugares e coisas. Inclinam, graciosos, a cabecinha para a direita e para esquerda, esperando pacientemente poder regressar ao sítio de onde fugiram. Se medo houvesse em cada uma das suas fugas, estariam já mortos. (...)


Italo Svevo in Una Burla Riuscita

quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

... até logo...



... ou talvez não...

Alba Luna, Caminante



quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

29









obrigada. são todos muito gentis.,

ouvir-me-ão dizer ao telefone do vosso coração.






e porque hoje quero empanturrar-me de tdas as coisas de que gosto, vou repetir-me, está bem?





_______________________________
_______________________________
_______________________________
Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites,
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.





Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos (XLIX)

terça-feira, 2 de Setembro de 2008








Astor Piazzolla, Le Grand Tango

(Interpretação: Opus Ensemble)



parece que para aprender a dançar o tango, tenho de arranjar primeiro um par...

Vá...

...dediquem cinco minutinhos da vossa vida a ler isto. e deixem-se de conversas deprimentes.

É terça-feira

imagem roubada aqui




Sérgio Godinho

segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

deus




66






Amanhã chegaste à minha vida
e disseste bom dia e era noite lá fora
puseste-me na mesa o prato da comida
acenaste-me adeus e não te foste embora
E como era manhã vestiste o meu pijama
tomaste um comprimido para dormir acordada
como era hora do almoço chamaste-me para a cama
como era hora da ceia bebeste-me ensonada
E quando temos frio aquecemos à lua
as mãos que penduramos na corda de secar
quanto mais roupa trazes, mais eu te sinto nua
e quanto mais te calas, mais te sinto cantar.



António Lobo Antunes, Fado Alexandrino

domingo, 31 de Agosto de 2008






David Hockney, Yves Marie a dormir (1974)




Tom Jobim, Estrada do Sol



agora vai passar a ser assim, todos os dias.
ou quase todos.




sexta-feira, 29 de Agosto de 2008



Arnold Genthe (Greta Garbo, 1925)


Rachmaninov, Prelude Op.23 - nº7
(piano: Marietta Petkova)



(...)


Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direcções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa cousa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados por entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-se no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem em baixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte...

Meu corpo é o centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente dentro de si,
Cruzando-se em todas as direcções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa dos átomos
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam
E a chuva como pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direcções!



Álvaro de Campos

quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Recomeçar...



penso que estarei apaixonada... e será uma paixão terrível: a intelectual.






Diane Arbus




Eric Satie, Les Trois Valses Distinguées Du Précieux Dégoûté II - Son binocle
(piano: Aldo Ciccolini)

O Telefone Negro






__Marquei os números antigos
com um vago desejo de respostas,
sabendo já que ninguém me esperava.
Com um desejo vão de ouvir vozes amadas
e que reconhecessem também a minha voz.
Meu telefone é negro,
e na noite, ainda mais negra,
somente ouvia o som uqe chamava uns sepulcros.
E eu sozinho em casa.
_______________Rasga-se a manhã
nos vidros turvos. Vai chegando o Verão.
Cantam os pássaros (os mesmos?),
e não sei se há consolo.


__Com a luz que nua amanhece,
nu, entro na cama,
_____________ e toca o telefone.
Apresso-me. Digo-lhe que me fale.
Continua o silêncio, sei que estão a falar.
Sai a voz de alguma boca morta,
ou, acaso, de tão só, em mim só há surdez?
Oiço outra vez os pássaros. E sie que são os mesmos
que então cantavam, tão eternos e frágeis.
Tenho que falar. Com quem,
se não saem também sons da minha boca?



Francisco Brines in A Última Costa (trad. José Bento, Assírio&Alvim, 1997)

segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Derrida



tive de roubar o ulrich...

foi impulso incontrolável, depois de quatro dias a espreitá-lo sorrateira e compulsivamente...







é deste caminhar
que tenho saudades.

do pensamento que se sente em cada passo.

do olhar que respira o olhar do outro: franco, directo.



as saudades de que exista alguém que vale a pena perseguir, com a alma a transbordar de poesia.







Irving Penn



imissyou









sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

Henri Cartier-Bresson (1908 - 2008)














NOTA:
não querendo induzir ninguém em erro, Cartier-Bresson morreu em 2004.
no cabeçalho, o intervalo indica o centenário do seu nascimento.




terça-feira, 19 de Agosto de 2008




Claude Monet, Young Girls in a Row Boat (1887)



Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.



Sophia de Mello Breyner Andresen in Antologia (Círculo de Poesia - Moraes Editores, 1975)



Gabriel Fauré, Trois romances sans paroles - nº 3

(piano: Paul Crossley)

domingo, 17 de Agosto de 2008

... ...





Camille Claudel
(8 de Dezembro de 1864, Fères-en-Tardenois - 19 de Outubro de 1943, Villeneuve-lès-Avignon)



«Muito me surpreenderia se a menina Claudel não viesse, um dia, a ocupar bruscamente um lugar entre os grandes mestres escultores do século.»


Armand Dayos




Camille Claudel travaillant à Sakountala dans son atelier (1887)



o comboio turbulento deixou-nos uma das esculturas de Rodin de que mais gosto. fiquei feliz por ter tido um bom começo de Domingo. depois começei a sentir aquele travo amargo na boca, que sempre sinto quando se fala em Rodin... porque é que não se fala de Camille Claudel? porque é que é que ela não teve a mesma projecção internacional que o mestre? não quero ser exagerada, mas terá sido porque era mulher num mundo de homens?



Vertumne et Pomone (1905)




Deito-me toda nua para me convencer de que você está aqui... toda nua... mas quando acordo, já não é a mesma coisa.


Um beijo. Camille
Sobretudo, não me engane mais.


sábado, 16 de Agosto de 2008

...



palavras para quê?...

Mundo Grande



Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais,
me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade in Sentimento do Mundo

sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

Leos Janacek

Quarteto para cordas nº 1, Kreutzer Sonata
Quarteto Zemlinsky



este é um dos filmes mais belos que vi nos últimos anos!
na altura, não chorei no cinema porque estava acompanhada; e talvez porque tivesse ficado constrangida... parvoíce...
ontem revi-o em DVD, e parece que aquelas lágrimas tinham ficado paradas no meu coração à espera de que pudessem ser libertadas.
há muito tempo que não chorava assim, abandonadamente. e faz-nos tão bem chorar!
há em mim uma necessidade enorme de me sentir humana, penso que será isso.



quinta-feira, 14 de Agosto de 2008



para a minha querida amiga Patrícia, que foi para Dublin trabalhar por quatro meses e me ofereceu os primeiros pensos rápidos que tive dos Peanuts (agora não uso outros!)





Liberdade

hoje continuava a sua dança, o vento vibrante da Costa da Caparica



Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.



Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Plotchenko, casas comigo?

quem é que disse que os clássicos não têm sentido de humor e são aborrecidos?

isto é o Plotchenko (lembras-te Lúcia?) no final, penso que dos Mundiais, campeão, na sua última apresentação, obviamente depois de ter sido anunciado o vencedor.






vá, e agora uma coisa mais séria, para os que não sabem quem é o Plotchenko nem o Yagudine.







Se Houver Ainda




Se houver (ainda) o pequeno corpo de luz deste crepúsculo (cor-
púsculo) que agora alarga quando
o interpreto estarás na tarde que é expansiva;
no começo da noite; no uivo distinto
canino) da distância.



Fiama Hasse Pais Brandão in F de Fiama - Antologia Breve (Teorema, 1986)

De improviso...

...passeava com a minha mãe pela minha querida Baixa, quando parámos entre a Brasileira e a Bernard. tocava-se e cantava-se. acabámos por ficar muito tempo e eu a meter com os músicos: são mexicanos e andam a promover um disco que se chama luz escondida; vão depois para Espanha, França... eu gostei mesmo muito. comprei o cd - uma pechincha, para dizer a verdade. são catalogados como sendo "Música do Mundo". nunca percebi muito bem estas designações... e as outras correntes? serão "Música do Universo"?


fica aqui um pedaço para vocês.



Radaid, La Martiniana

sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Vamos dançar?



para o comboio turbulento, como pedido de desculpas pelo meu mau humor.


Paul Almazy, Rock'n Roll sur les Quais de Paris


Jimi Hendrix

Cântico




Gustav Klimt, Danae (1907-08)

Do teu corpo nasce um lírio
que se dissolve num lago
onde um cisne de marfim
persegue estrelas e carpas.
Onde o sol molha no frio
das águas o rosto ardente.
Onde os salgueiros mergulham
as pontas na rama verde.

Do lago desponta a noite
com sua face de ardósia,
engalanada de círios
e perfumada de morte.
Da noite nasce um relâmpago
com sete pontas de luz:
sete espadas p'ra manchar
de sangue o ventre da lua.

Teu copro é assim: como as ondas
de um mar rouco, em desvario,
de onde me assalta, em sua fúria,
o monstro do Apocalipse.
Cardo de agudos espinhos
ou sensitiva de carne,
teu corpo é um trigal de lanças
e morre ao toque dos lábios.



Domingos Carvalho da Silva (Vila Nova de Gaia, 1915-) in Antologia de Poesia Brasileira - Organização de José Valle de Figueiredo (Editorial Verbo, Biblioteca Básica Verbo 24, Livros RTP, s.d.)

[...]Deitei-me no chão, e não é fácil. É preciso ter sido queimado por muitos nomes, ter esquecido e relembrado a delicadeza , o sangue, a ironia, paisagens e transmutações, as formas, as vozes. Como se pudéssemos existir sem qualquer herança, com a fortuna apenas de um tesouro criado pela solidão. Deitado na terra, respiro contra o chão vivo, e como estou com a cara muito junto ao chão, o sopro bate na terra e volta-me à cara. É ainda assim uma bela coragem.
[...]
Dormir então debaixo de uma árvore muito brilhante. Mas primeiro: cólera, esquecimento, humildade. Comer o próprio coração colérico, esquecido, humilde.[...]


Herberto Helder in Photomaton & Vox (Assírio&Alvim, 1995)

quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Winning a Battle, Losing the War

Verão Sufocante

sinto a tua presença
em branco
a passear comigo ao sol;
és o vento no meu cabelo,
as mãos invisíveis
a despentear-me a serenidade do crepúsculo.

Si Tu Me Olvidas

Quiero que sepas
una cosa.
Tú sabes como es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacian las uislas tuyas que me aguardan.
Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.
Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.
Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
e saldrán mis raíces
a buscra otra terra.
Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salír de los míos.


Pablo Neruda in Los Versos del Capitán - Las Furias

terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Uma Singela Homenagem


NENHUM CANCRO


Ainda por cima, o pavilhão dos cancerosos era o número treze! Pavel Nicolaievitch Rusanov nunca fora, nem poderia ser, uma pessoa supersticosa, mas o coração dera-lhe um baque de desânimo ao ver escrever na sua papeleta de adnissão «Pavilhão 13». Podiam ter tido o bom sneso de dar o número treze a qualquer enfermaria de prótese ou de obstetrícia.

Fosse como fosse, porém, aquela clínica era o único lugar onde poderiam valer-lhe em toda a República.

«Não é cancro, pois não, Doutora? Não tenho cancro?» - perguntara Pavel Nicolaievitch, esperançosamente, a tocar ao de leve no tumor maligno do lado direito do pescoço. Parecia estar a crescer de dia para dia, mas a pele esticada continuava tão branca e com um aspecto tão inofensivo como sempre.


Alexandre Soljenitsine in O Pavilhão dos Cancerosos (Círculo de Leitores, 1975)


vi agora a notícia, na SIC.

sempre que um destes senhores morre, sinto uma tristeza imensa. parece... não, não parece! o mundo fica, definitivamente, paupérrimo. passei a minha adolescência com estes senhores; foram os meus companheiros de Verão, os únicos. estou triste com todos estes desaparecimentos...

Não me Queiram Comer por Parva, Que eu Não Deixo!

e depois também estou a deitar ácido pelos olhos, fumo pelo nariz e chamas pela boca... o meu modem, de uma empresa cujo nome não vou referir, deu o berro no prazo irrisório de uma semana (tinha feito a troca por um novo há exactamente sete dias). ninguém me atende o telefone por parte do apoio ao cliente e quando atendem deixam-me 20/30 minutos em consulta sem que me resolvam o assunto - e o meu modesto saldo a desaparecer. eis senão quando me batem à porta duas senhoras a fazer publicidade de um outro serviço: internet, televisão,telefone por menos €10. 'bora lá! força nisso! amanhã vou dar baixa do outro contrato. que eu cá sou assim, tempestuosa e eficaz quando me chega a mostarda ao nariz.
Grandes Filhos da Mãe, que há dois dias que ando a pedinchar internet à minha irmã caçula!

Esta é...

... do Nuno, que não está a conseguir postar este vídeo.


segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Sobre Métodos




Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdaeira atitude científica.

Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.

A coerência , a convicção, a certeza são, além disso, demonstrações evidentes - quantas vezes escusadas - de falta de educação. è uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é macá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.

Uma criatura de nervos modernos de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações reigiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.

Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm sobretudo, quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variãrão, como é de entender, consonte esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, é monarquico ao crepúsculo; ateu sob um sol decoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos de anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo, uma invenção de louco quando, ante uma solidão do mar, ele não souber de mais do que da "Odisseia".

Convições profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.

Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, a religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética - a estética dos que ainda não a podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumada às suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.


1915


Fernando Pessoa in Os Portugueses - A opinião pública



este senhor é que sabia...

quarta-feira, 30 de Julho de 2008

É a prova de que necessito urgentemente de umas férias que apenas vou ter em Setembro...



estou aflita e feliz ao mesmo tempo...

recebi uma ilustre visita neste meu cantinho; mas logo pelas piores razões - desde já mil perdões!

é que sabem, aquele poema lindíssimo que aqui vos deixei, de título Carmim, não é do poeta André Dick, como o próprio me indicou em comentário. o lapso deve-se a ter o (péssimo) hábito de ler os livros de poemas abrindo-os conforme calha, talvez como deveria ler-se a Bíblia - dizem alguns -, o que me levou a este enorme lapso.

lamento imenso, André Dick! espero não tê-lo ofendido nem à prezada autora (agora sim) do poema acima referido, Andréa Catrópa.

as minhas sinceras saudações para os dois.


deixo, então, em tom de redenção um poema (este sim) de André Dick.


Hopper, Gas



(talvez não seja este o quadro, no entanto, é lindíssimo.)



Num quadro de Edward Hopper


a vida destrói
um sol quase esquecido
numa tela
de Hopper:

o posto de gasolina
abandonado,

onde um senhor,
talvez o dono,

em seu ócio,
rega a grama

com sua bomba
de petrólio.



André Dick in Antologia de Poesia Brasileira do Terceiro Milénio - Dezoito poetas da novíssima geração (Exodus, 2008)


terça-feira, 29 de Julho de 2008

Essere Semplicemente Felice

Federico Fellini, Amarcord

Ensinam o vento a dançar*...




Elliot Erwitt



I'm Gettin' Sentimental Over You


*título roubado ao poeta Eduardo Jorge in Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio - Dezoito poetas da novíssima geração (Exodus, 2008)

Breve Sonata em Sol [Um] (Menor, Claro)



Vincent van Gogh, Campo de Trigo com Corvos



A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia



Ruy Belo (1933 - 1978) in Todos os Poemas - II Volume


segunda-feira, 28 de Julho de 2008

Negro Gato







Marisa Monte

sábado, 26 de Julho de 2008

O Livro

Havia de encontrar
alguma antiga ferida
e nela, supurando ainda,
teu rosto:
outonos e infernos
esquecidos
entre páginas amareladas
e a dor,
essa inútil traça.


Micheliny Verunschk in Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio - Dezoito poetas da novíssima geração (Exodus, 2008)

Carmim

era para ver um relâmpago
que abri a página era
para fazer fogo que
escrevi amor


André Dick in Antologia de Poesia Brasileira do Início o Terceiro Milénio - Dezoito poetas da novíssima geração (Exodus, 2008)

Amores da minha vida

Rubinstein, o Grande






vão desculpar-me, mas não consigo deixar-vos apenas um...




absolutamente genial em todas as interpretações, no entanto sempre carinhoso e especial com Chopin.










e, por fim, encontrei mais esta pequena preciosidade que não pude deixar de aqui incluir. estas peças, os improvisos de Schubert, vão ficar para sempre associados no meu coração a um livro que copiei à mão para a minha amiga Filó: "Agatha" de Duras. durante o tempo que durou a transposição manuscrita, foi esta a minha banda sonora em modo repeat.