Markéta Luskacová, Cafe Bethnal Green Rd. 79O tédio é a verdade em estado puro.
Jacques Rigaut
...caminho com os braços levantados, e com a ponta dos dedos acendo o firmamento da alma. espero que o vento passe... escuro, lento. então, entrarei nele, cintilante, leve... e desapareço. Al Berto
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes

René Magritte, La Reconnaissance Infinie (1963)
Vincent van Gogh
Primavera, Verão, Outono: dias em que se adivinha
Um mundo prévio aos nossos conhecimentos, em que
As flores pensam na concretude do cheiro das cores
E animais de idade indefinida perseguem vidas irrisórias,
Horizontais, evitando serem, com esse nível de conduta,
Assessores da intriga do homem para se tornar divino.
Um metrónomo infalível instala-se em tudo: assim, em Maio
Crias de pássaros no ovo gritam às outras: Nasçam!;
Os cucos surpreendidos por Junho desafinam; quando Julho
Obeso liga o calor da terra, desembaraçando amarras venenosas,
As víboras entram na festa; avisadas pelo beliscão de Outubro
As folhas novas dão às velhas o puxão libertador.
Todavia, o Inverno tem o verbo certo de um olhar caseiro
Para nós mesmos, sentados cara a cara com os Nomes Próprios,
Tempo para ler os pensamentos, o tempo exacto
De experimentar novos metros e novas receitas,
De reflectir nos factos que meses mais quentes trouxeram
Até que transmudados, façam parte de uma história humana.
Aí, respondendo à nossa exigência de compreensão,
A Natureza afrouxa o esgar até um arreganho mutável,
Pedras, sapatos velhos, renascem como signos sacrificiais,
Acenam-nos na Primeira Pessoa dos mistérios
Que desconhecem, acartando uma mensagem
Da única Fonte invisível do singular das coisas.
Nina Simone, Ain't Got No, I Got Life


Carlos Paredes, Canção de Acipe
Como é que continua o nosso Portugal tão igual a si mesmo?



Purcell (1659-1695)
Here the Deities – Benjamin Perrot
Scarlatti (1685-1757)
Sonata em Mi Maior, K 531 - Iddo Bar-Shaï
J. S. Bach (1685-1750)
Sonata nº 5 em Fá Menor, BWV 1018 (Adagio) – Lucy van Dael e Bob van Asperen
Chopin (1810-1849)
Valsa em Mib Maior – Abdel Rahman El Bacha
Polaca em Dó Menor, Op. 40, n.º2 - 1 – Paulo Santiago
Nocturno em Si b Menor – Peter Schmalfuss
Sonata para Piano em Si b Menor, Op. 35 (Grave – Doppio Movimento) – Sergei Rachmaninov
Schumann (1810-1856)
Cenas Infantis, Op. 15, n.º 10 – Paulo Santiago

Liszt (1811-1886)
Concerto para Piano n.º1 em Mi b Maior (Quasi Adagio) - Nikita Magaloff - Orquestra Sinfónica da Rádio de Zurique
Brahms (1833-1897)
Sinfonia n.º 4 em Mi Menor, Op. 98 (Allegro non troppo) – Philarmonic Symphony Orchestra
Grieg (1843-1907)
Concerto para Piano em Lá Menor, Op. 16 (Adagio) – Dubravka Tomsic – Radio Symphony Orchestra Ljubljana
Janácek (1854-1928)
Quarteto para Cordas n.º 2, “Intimate Letters” (Moderato-Adagio-Allegro) – Vlach Quartet Prag

Mahler (1860-1911)
Sinfonia n.º 4, 4º Andamento (Sehr Behaglich) – Gustav Mahler e Yvonne Kenny

Satie (1866-1925)
Enfantillages Pittoresques II: Berceuse – Aldo Ciccolini
Rachmaninov (1873-1943)
Etude-tableaux, Op. 39 - n.º 8 – Nikolai Lugansky
Villa-Lobos (1887-1959)
Suite Floral (Idílio na Rede) – Sónia Rubinsky
Prokofiev (1891-1953)
Piano concerto n.º 1 (Andante Assai) – Gabriel Tacchino, Radio Luxembourg Orchestra – Louis de Froment
Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
2 Embalos – Olga Prats
Britten (1913-1976)
Chanson d'automme – Ian Bostridge
Arvo Pärt (1935-)
Für Alina – Jürgen Kruse
Sérgio Azevedo (1968-)
Duas Borboletas para Olga (2 pianos) – Olga Prats
Jorge Salgueiro (1969-)
In Paradisum – João Vasco
Sara Claro (1986-)
Nove Pequenas Peças, n.º 7 – Olga Prats
NOTA: As indicações em falta devem-se à não referência na fonte.




Monet, Papoilas
Sempre fui nostálgica, sobretudo do que não chegou a acontecer. Dos deslumbramentos a haver.
Inês Pedrosa in Fazes-me Falta (Publicações Dom Quixote, 2002)

Lucien Freud
Velasquez, Las Meninas
falávamos, eu e a Catarina, de como, por vezes, temos de deixar partir quem amamos. porque conseguimos tão facilmente fazer sofrer alguém de quem gostamos...
depois fomos ver este filme, sem sabermos do que tratava. e não precisámos de falar mais.

obrigada. são todos muito gentis.,
ouvir-me-ão dizer ao telefone do vosso coração.
e porque hoje quero empanturrar-me de tdas as coisas de que gosto, vou repetir-me, está bem?


Amanhã chegaste à minha vida
e disseste bom dia e era noite lá fora
puseste-me na mesa o prato da comida
acenaste-me adeus e não te foste embora
E como era manhã vestiste o meu pijama
tomaste um comprimido para dormir acordada
como era hora do almoço chamaste-me para a cama
como era hora da ceia bebeste-me ensonada
E quando temos frio aquecemos à lua
as mãos que penduramos na corda de secar
quanto mais roupa trazes, mais eu te sinto nua
e quanto mais te calas, mais te sinto cantar.
António Lobo Antunes, Fado Alexandrino

Tom Jobim, Estrada do Sol
agora vai passar a ser assim, todos os dias.
ou quase todos.
Arnold Genthe (Greta Garbo, 1925)
Diane Arbus
Eric Satie, Les Trois Valses Distinguées Du Précieux Dégoûté II - Son binocle
(piano: Aldo Ciccolini)

__Marquei os números antigos
com um vago desejo de respostas,
sabendo já que ninguém me esperava.
Com um desejo vão de ouvir vozes amadas
e que reconhecessem também a minha voz.
Meu telefone é negro,
e na noite, ainda mais negra,
somente ouvia o som uqe chamava uns sepulcros.
E eu sozinho em casa.
_______________Rasga-se a manhã
nos vidros turvos. Vai chegando o Verão.
Cantam os pássaros (os mesmos?),
e não sei se há consolo.
__Com a luz que nua amanhece,
nu, entro na cama,
_____________ e toca o telefone.
Apresso-me. Digo-lhe que me fale.
Continua o silêncio, sei que estão a falar.
Sai a voz de alguma boca morta,
ou, acaso, de tão só, em mim só há surdez?
Oiço outra vez os pássaros. E sie que são os mesmos
que então cantavam, tão eternos e frágeis.
Tenho que falar. Com quem,
se não saem também sons da minha boca?
Francisco Brines in A Última Costa (trad. José Bento, Assírio&Alvim, 1997)
é deste caminhar que tenho saudades.
do pensamento que se sente em cada passo.
do olhar que respira o olhar do outro: franco, directo.
as saudades de que exista alguém que vale a pena perseguir, com a alma a transbordar de poesia.



NOTA:
não querendo induzir ninguém em erro, Cartier-Bresson morreu em 2004.
no cabeçalho, o intervalo indica o centenário do seu nascimento.

Gabriel Fauré, Trois romances sans paroles - nº 3
(piano: Paul Crossley)
Camille Claudel
Camille Claudel travaillant à Sakountala dans son atelier (1887)+camille+claudel.jpg)
Deito-me toda nua para me convencer de que você está aqui... toda nua... mas quando acordo, já não é a mesma coisa.
Um beijo. Camille
Sobretudo, não me engane mais.
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais,
me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
Carlos Drummond de Andrade in Sentimento do Mundo

Radaid, La Martiniana
Gustav Klimt, Danae (1907-08)Do teu corpo nasce um lírio
que se dissolve num lago
onde um cisne de marfim
persegue estrelas e carpas.
Onde o sol molha no frio
das águas o rosto ardente.
Onde os salgueiros mergulham
as pontas na rama verde.
Do lago desponta a noite
com sua face de ardósia,
engalanada de círios
e perfumada de morte.
Da noite nasce um relâmpago
com sete pontas de luz:
sete espadas p'ra manchar
de sangue o ventre da lua.
Teu copro é assim: como as ondas
de um mar rouco, em desvario,
de onde me assalta, em sua fúria,
o monstro do Apocalipse.
Cardo de agudos espinhos
ou sensitiva de carne,
teu corpo é um trigal de lanças
e morre ao toque dos lábios.
Domingos Carvalho da Silva (Vila Nova de Gaia, 1915-) in Antologia de Poesia Brasileira - Organização de José Valle de Figueiredo (Editorial Verbo, Biblioteca Básica Verbo 24, Livros RTP, s.d.)



Hopper, Gas
(talvez não seja este o quadro, no entanto, é lindíssimo.)
Num quadro de Edward Hopper
a vida destrói
um sol quase esquecido
numa tela
de Hopper:
o posto de gasolina
abandonado,
onde um senhor,
talvez o dono,
em seu ócio,
rega a grama
com sua bomba
de petrólio.
André Dick in Antologia de Poesia Brasileira do Terceiro Milénio - Dezoito poetas da novíssima geração (Exodus, 2008)
Elliot Erwitt
I'm Gettin' Sentimental Over You
*título roubado ao poeta Eduardo Jorge in Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio - Dezoito poetas da novíssima geração (Exodus, 2008)
Vincent van Gogh, Campo de Trigo com Corvos
A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia
Ruy Belo (1933 - 1978) in Todos os Poemas - II Volume
vão desculpar-me, mas não consigo deixar-vos apenas um...
absolutamente genial em todas as interpretações, no entanto sempre carinhoso e especial com Chopin.